Madrugadas Ruins, Manhãs Piores

Madrugadas Ruins, Manhãs Piores

Às vezes, tenho a sensação incômoda de que até meu próprio reflexo no espelho me julga. A imagem que deveria ser minha — que deveria carregar meus olhos, meus gestos e pensamentos — parece, por instantes, ganhar vida própria. Como se, em algum momento, ela se libertasse da obrigação de apenas me imitar e resolvesse apontar o dedo contra mim, silenciosa e impiedosa, dizendo:

“A culpa é sua.”

Ultimamente, tenho sido atormentada por pesadelos com você, filha. Coisas que eu preferia jamais lembrar, quanto mais escrever. Mas estou aqui, tentando encontrar alguma forma de expulsar isso de dentro de mim — nem que seja por palavras.

Sonhos recorrentes onde encontro seu corpo sem vida no chão da sua casa, estirado sobre o carpete, como se a cena estivesse congelada no pior momento da minha imaginação. Em outros, você me encara com um ódio que nunca vi nos seus olhos de verdade — me acusa, grita, me bate. E, mesmo sendo só um sonho, a dor é concreta. Fisicamente concreta.

Durmo mal. Acordo pior.

Já perdi a conta das madrugadas que passei encarando o teto ou vagando pela casa, arrancada do sono por esses pesadelos que insistem em se repetir. Às vezes acordo encharcada de suor, outras em lágrimas. Já aconteceu de, no susto, eu bater em coisas ao meu redor — como se, por um instante, eu estivesse lutando de verdade com os monstros da minha cabeça.

E como se tudo isso não bastasse, ainda tem a dúvida constante, a pergunta que ecoa o tempo inteiro: você está bem?

Será que você está comendo direito? Tem se cuidado? Será que sorriu hoje? Será que alguém te fez rir daquele jeito que você ria quando esquecia do mundo? Isso me atormenta. E minha mente, que já não é um lugar muito seguro, aproveita essa brecha para me torturar ainda mais.

Então, quando o peso fica insuportável, eu tento escapar. Saio de casa, ando pelas ruas com o único propósito de respirar, de me afastar de mim mesma. Caminho sem rumo, só pra tentar escapar dos meus próprios pensamentos.

E é nessas caminhadas que, às vezes, o universo me dá um breve alívio: eu te vejo.

Você está lá, no meio dos seus amigos, rindo, conversando, trocando aquelas piadas internas que só fazem sentido entre vocês. Tem algo de mágico na maneira como vocês, adolescentes, se relacionam — como se o mundo ainda fosse um lugar onde a leveza é possível, onde o riso ainda é verdadeiro.

É bonito de ver.

Observar você desse jeito, mesmo à distância, é como receber uma pequena dose de esperança. Você não imagina o quanto isso me acalma, o quanto me dá forças para continuar tentando, mesmo que seja de longe.

Porque, apesar de tudo, eu te amo como no primeiro dia em que te segurei nos braços. E ver você bem… é tudo que eu tenho de verdade agora.


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